Gostaria de contar para vocês uma experiência inesquecível que tive nas minhas andanças de férias nos United States of America.
Após desembarcar em Washington D.C., num vôo da American Airlines que realmente me transmitiu segurança e conforto, decidi seguir direto até Terre Haute, Indiana, para passar o Ano Novo com minha querida amiga e sócia, Theresa McCormack. Era uma viagem de dezesseis horas num ônibus da Greyhound.
Fazia um frio tremendo! Eu usava um casacão de lã, mas não era daqueles forrados com pele de carneiro ou outro similar, e para complicar eu não dispunha de dois acessórios básicos para enfrentar a ocasião: luvas e gorro. Todos os outros passageiros estavam bem agasalhados, mas eu não sentia frio a não ser quando descia nas paradas.
Na estação de Pittsburgh reparei em dois rapazes, bem hippies, com cabelos longos que pareciam ninhos de passarinho, vestimentas rasgadase amassadas, carregando mochilas e cobertores... vocês sabem como é. Eram jovens, aparentavam ter seus vinte e poucos anos, porém, falavam mansamente, e mostravam muitas gentilezas com seus companheiros de viagem, aguardando novo ônibus na estação.
A certa altura, um deles deu um pirulito para uma criança que chorava no colo de uma mãe já estressada e o outro ajudou a um senhor idoso a carregar suas malas, embora ele mesmo estivesse carregando um grande peso em mochilas. Pensei comigo mesma... espero não precisar sentar perto de um deles no ônibus! Afinal das contas, não estamos acostumados a conviver com hippies diretamente no nosso dia a dia brasileiro!
Pois bem, estava eu sentada ao lado de uma senhora negra, professoraprimária num colégio de Philadelphia, conversando animadamente sobre o Brasil e a vida nos Estados Unidos, quando o ônibus parou novamente, após três horas de viagem, numa cidadezinha qualquer e tínhamos que descer para trocarmos de viatura. Então minha companheira de viagem disse-me "it is terribly cold outside, dear, you are going to freeze" (está terrivelmente frio lá fora, querida, você vai congelar)...mas mesmo assim, desci do ônibus enfrentando o frio e a neve.
Ao colocar meus pés no chão, qual não foi minha surpresa em ver que um dos rapazes me aguardava na porta do ônibus, com um par de luvas de lã pretas nas mãos, as quais ele me estendia dizendo "please wear these, you will needthem more than me. I am used to this cold weather" (por favor, use essas luvas porque a Sra. precisa delas mais do que eu. Estou acostumado ao frio daqui").
Gente, eu tive lágrimas nos olhos ao aceitar esse gesto magnificamentehumano! Tive que viajar tantas milhas, para pegar um ônibus interestadual e me encontrar no Midwest norte americano, para receber uma prova tão positiva que me fez lembrar de uma linha de Shakespeare aonde ele fala do leite da bondade humana (the milk of human kindness).
São experiências como essa que tocam nossos corações e nos mostram que nem tudo está perdido no nosso conturbado mundo de hoje.Que maneira mais solidária poderia querer eu para iniciar um Novo Ano, do que receber esse gesto de calor humano?
Meus votos para que todas vocês recebam em 2002 muitas e muitas provas iguais às das luvas de lã, com dois pequenos furos, as quais eu coloquei com gratidão nas minhas mãos.
Reciclei minha aprendizagem e relembrei uma grande lição recebida desde minha infância: jamais julgar alguém apenas pela aparência!
Astrid Rizzi é
presidente da Great Start Serviços Ltda. Pioneira no recrutamento e Colocação de
Secretárias Multilingües; Outplacement personalizado; Consultoria de Imagem.
Ministra workshops e palestras para aperfeiçoamento profissional em todos os
níveis.